Memória curta

Tem se assistido ultimamente, com certeza, que em algumas circunstâncias com muita razão e até com algum desespero, ao alerta para a diminuição do rendimento disponível a que estão sujeitos a generalidade dos portugueses. Certo é, que existe para além de uma realidade evidente e que a todos desgosta (fome, desespero, desemprego, falências), muito aproveitamento, e muita demagogia no debate da presente situação. Estranho, nomeadamente, que os arautos da desgraça, e da piedade para com o desespero alheio, só agora se levantem indignados, e nada tenham feito para evitar que aqui chegássemos, alguns bem pelo contrário. Chegámos a um ponto, em que infelizmente a solução (controlo da despesa pública e equilíbrio da balança de transacções) foi-nos imposta por terceiros, tal era o estado lastimável, diria mesmo, vergonhoso, a que chegámos. Não vi esses mesmos senhores, à época (agora é fácil), alguma vez criticarem o brutal aumento da despesa pública (e privada) que ocorreu nas duas últimas décadas, em variados governos (de várias cores políticas), com origem em obras faraónicas, desnecessárias (ainda hoje, em grande parte sem qualquer utilização), pois em pouco ou nada contribuíram para o desenvolvimento das regiões em que foram efectuadas, apenas servindo para encher os bolsos de alguns, poucos, provavelmente amigos de quem estava no governo na altura, nem os vi criticar (como agora o fazem em sentido inverso) o aumento de vencimentos dos funcionários e gastos públicos, nomeadamente em períodos eleitorais, completamente desfasados da realidade económica do país, e com muito desperdício, difícil de justificar ou até de compreender.

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 Foram permitidos incentivos desmesurados (ainda hoje incompreensivelmente o são)  para a aquisição a crédito, pelas famílias, de bens não duradoiros (carros, viagens, telemóveis, etc.), à generalização da compra  de habitação (não estou aqui a falar em acesso, direito bem consagrado na constituição) , ao contrário do que acontece na maioria dos países realmente desenvolvidos da Europa, em que se privilegia o arrendamento, e à generalização de todo tipo de gastos e consumos desenfreados sem qualquer justificação racional.
Finalmente, e como era inevitável, chegamos a uma situação insustentável, em que consumíamos sistematicamente mais do que produzíamos, devíamos (devemos) ao exterior, entre o estado, as famílias, e as empresas, mais do dobro daquilo que produzíamos num ano, em que algo tinha que ser feito para travar o agravamento deste estado de coisas. Pena é, como já referi, que tenham sido outros a nos impor, aquilo que facilmente deveríamos ter chegado à conclusão que tínhamos de fazer.

dividapublicaEvolução da Dívida Pública em % do PIB
Fonte: http://euacuso.blogs.sapo.pt/43805.html

Hoje, nós, cidadãos comuns deste país, pagamos por aquilo que fizemos ou deixámos fazer, e nestes me incluo. Não temos pois que nos queixar, se não de nós próprios. Coitados daqueles, que ainda jovens, não tinham idade para se fazer ouvir e pagam hoje com a sua situação de desemprego e fracas perspectivas, os erros dos outros, que não souberam evitar esta situação. Como continuarão a pagar amanhã com os seus impostos e demais contribuições os desvarios passados.

Julgo que é tempo de evitar soluções fáceis, mas porventura pouco duradoiras, e tentar, com certeza com o sacrifício de “todos”, alcançar um futuro melhor para os nossos filhos e netos, em que situações como esta não se voltem a repetir, colocando eventualmente no texto constitucional limites ao endividamento do estado.

Demagogias e promessas mirabolantes de soluções impossíveis, levarão ao extremar de posições na sociedade, conduzindo inevitavelmente a soluções políticas que não partilho. Apesar de tudo, prezo muito a DEMOCRACIA em que vivemos.

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